O tempo do “homem sem vocação”*

O Sínodo dos Bispos que se aproxima trouxe novamente à ribalta uma reflexão séria sobre a vocação. De facto, o Santo Padre, dá muita importância à descoberta e discernimento vocacional e diz mesmo que somente na abertura a esta dimensão a fé ganha o seu verdadeiro sentido.

O Papa Francisco diz que o dom da fé “se torna fecundo através de escolhas de vida concretas e coerentes”.

Falemos então de vocação para podermos viver um verdadeiro caminho de preparação ao Sínodo, mas sobretudo para podermos orientar a nossa vida na descoberta deste projeto de amor.

Durante muito tempo “ter vocação” dizia respeito somente a todos os que eram chamados a uma vocação de especial consagração. Trocando por miúdos, só tinham vocação os padres e as freiras. Foi o concílio Vaticano II a dizer que todos os homens são chamados à “vocação universal à santidade"**. A nossa grande vocação é a de responder à graça de Deus que nos fez seus filhos. E a esta vocação, todos somos chamados.

Hoje em dia, quando falamos de vocação, falamos de uma palavra já banalizada e muitas vezes usada de maneira errada para falar do que vamos fazer na vida. Isto não é vocação. A vocação é totalizante. Fala do que somos e não simplesmente do que fazemos.

Podemos então, realmente, dizer que estamos no tempo do “homem sem vocação”. Não porque Deus não chame mais, mas sobretudo porque a cultura de hoje quer eliminar da nossa vida o facto de sermos chamados a ser algo de radicalmente diferente: santos! Vivemos no tempo do self-made man e ter alguém (mesmo sendo Deus) que chama a ser e fazer alguma coisa vai contra a ideia errada de liberdade que o nosso tempo tem e que nos quer convencer que podemos chegar onde queremos sozinhos.

Somos chamados! A vocação nasce do mistério da nossa existência. Nascemos porque fomos queridos, por Deus e pelos nossos pais. Nascemos porque fizemos parte de um projeto, humano e divino, que nos deu vida. E isto abre-nos, desde logo, à certeza de que temos de continuar este projeto de amor. Fazendo as opções mais corretas para a vida.

Somos chamados! A vocação manifesta-se somente quando olhamos o mundo e nos damos conta de que ele precisa de nós. A vocação existe porque a realidade em que vivemos é uma “pro-vocação”. O mundo em que vivemos exige de nós a busca de um sentido para a vida para não andarmos à deriva, contentando-nos em existir e em ir ao sabor do vento. Somos chamados a fazer bem mais do que isto.

Foi isto que fizeram os santos e é assim que cada um pode descobrir, discernir e atuar a sua vocação: percebendo que fazemos parte de um mistério maior que nós e que por isso, temos a responsabilidade de ajudar o mundo a ser um pouco mais feliz.

Não gosto muito de slogans vocacionais, mas há um que gostava que pudéssemos escutar, refletir e atuar na vida, para que seja “pro-vocação” a sermos e fazermos mais. E o slogan foi criado pelo maior “publicitário” da fé cristã que alguma vez existiu: São Paulo. Somos “santos por vocação!” (Rm 1,7)


 * Cf. Novas vocações para uma nova Europa, n. 10 (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccatheduc/documents/rc_con_ccatheduc_doc_13021998_new-vocations_po.html). Esta expressão é também o titulo de um artigo muito interessante ( http://notedipastoralegiovanile.it/index.php?option=com_content&view=article&id=12437:nel-tempo-delluomo-senza-vocazione-&catid=488:il-sinodo-sui-giovani) de Dom Paolo Martinelli, Bispo auxiliar de Milão, no qual me inspirei para este texto.

** LG, 32

Marcações: Vocações, Jovens em Igreja

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