À porta da caridade

«Onde há
Caridade e Amor,
Aí habita Deus.»

São Paulo

Imaginemos a caridade como uma catedral onde todos cabemos e aonde acorremos.
Imaginemos uma catedral a que temos necessidade de voltar todos os dias.
Imaginemos um templo onde encontramos sentido; a vida como num espelho.
Imaginemos um habitáculo de Deus onde não haja fome.
Imaginemos uma casa onde pela arte sintamos necessidade de doar algo e que só tenhamos um Deus que não temos.
Imaginemos um lugar para um Cristo despido, colado e cuspido –calado- onde a vida que não ganha ferrugem possa existir.
Imaginemos um lugar de encontro como no poço de Jacob, onde um movimento descendente se torne ascendente.
Procuremos um lugar onde seja possível com um olhar para o alto, tatear o chão que é pisado.
Procuremos o instante, em que nos é visível a vossa, a nossa necessidade, e nos faça participantes de uma só e mesma criação.

Entre o altar e a rua

Só quem ama é capaz de se abrir à caridade e à implicada mudança de vida. É entender numa lógica bíblica que a capa que o Outro não tem, pode ser parte da minha.
Na vida de qualquer católico a dimensão litúrgica é sempre um festim muito mais apetecível ao cheirar a terra indigente onde habita a caridade.
Um dia possamos talvez entender que a matéria que pisamos com os nossos pés no pórtico da igreja, enquanto entramos, seja a mesma que serve de altar no lugar mais solene do templo. Se é no altar que a vida do cristão se inicia, por sua vez, é à porta da igreja que ela se concretiza. Dante na sua Divina Comédia, no canto XIII do Purgatório, já nos revela que:

«Então os olhos mais abri:/ olhei em frente e vi sombras com mantos/ sem que da pedra a cor os diferencie.  
[…] Vão nos pendões pedindo sua esmola…»

O que Dante aqui refere não é mais do que uma prática que discorre até aos nossos dias. O adro enquanto átrio de gentios a acontecer até hoje.

«Ama e faz o que quiseres»

Muitas vezes nos perguntamos se somos ou não enganados. Se existe uma real necessidade ou se a necessidade é que se tornou necessária. São riscos a correr. A caridade é, para nós mesmos, uma necessidade descoberta quando entendemos a solidão e nela somos capazes de encontrar o amor compassivo; é percorrer descalço o caminho da paz, tendo por fruto a alegria.

Gostaria apenas de recordar a pequena história que Tolentino Mendonça conta no seu mais recente livro sobre “O pequeno caminho das grandes perguntas” quando se recorda de uma alemã que dava esmola a todos quanto encontrava, mesmo suspeitando que estava a ser enganada. Esta aparente insensatez salva o mundo, enche-o de amor (cf. A insensatez que salva o mundo p.77).

A caridade deve ser abnegada, com atenção ao rosto  -ao ser - mas desinteressada do seu valor material. Que nos importa que o mundo nos chame loucos ou insensatos? Deixemo-nos apenas habitar por esta certeza, a que «Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em nós próprios» (cf. Bento XVI, Deus caritas est), neste caso, o da compaixão que ecoa na concreta caridade.

Termino com um grito que acontece às portas do templo e que é capaz de fazer estremecer o seio da Terra e que nos deve levar à necessária oração:

«Senhor, porque te conservas à distância
E te escondes nos tempos de angústia?
Levanta-te, Senhor! Ó Deus, ergue a tua mão
E não te esqueças dos miseráveis.
A ti se abandona confiadamente o pobre;
Tu és o amparo do órfão.
Ouve, Senhor, o grito dos humildes;
Atende-os e conforta-os no seu coração»

Salmo 10, 1. 12. 14b. 17

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