Discordar educadamente

No princípio eram os fóruns de discussão. Quem se lembra deles!? Estávamos nos anos noventa e a internet gatinhava de chucha na boca. Sobre os mais variados temas, mesmo religiosos, os fóruns de discussão davam guarida e palavra a alguns curiosos e mesmo especialistas nas matérias versadas. Havia discussão? Havia. E muita.

Dissentir, discutir e decantar em ódio os maus fígados não nasceu com o facebook, o twitter, ou nas famigeradas caixas de comentários de qualquer jornal. Haters sempre os houve e sempre os teremos. E não sou os outros. E quando me refiro só aos outros que pensam diferente de nós, que só diferentes de nós, que não são crentes, ou seja lá o que legitimamente têm direito a ser. Refiro-me a nós, os catolicíssimos. Por caridade excuso-me de nomear um bom par de grupos de actualidade religiosa no facebook, blogues e páginas de internet onde os textos não têm um pingo de moral cristã.

Pecador me confesso e desde aqui faço a minha mea culpa. Nem sempre tenho sido o mais correcto e piedoso dos comentadores. Os dedos, muitas vezes envenenados, dão-se a certas liberdades quando pousam nas teclas. Gosto de uma boa picardia, provocação e causar alguma tensão. Mas também confesso que o prazer momentâneo facilmente redunda em sentimento pessoal de injustiça, num dizer cá para os meus botões: “Paulo, não podes reagir assim... Calma, Paulo! Calma! Respira fundo! Isto não leva a lado nenhum!”

Este ano, Bruno Mastroianni, que tive o prazer de o ter como professor de media relations, aquando da minha estação Romana, lançou o seu último livro que tem por título “La disputa felice. Dissentire senza litigar, sui social network, sui media e in pubblicoı”. Traduzo: A disputa feliz. Dissentir sem litigar, nas redes sociais, nos media e em público.

Tem sido o meu livro de cabeceira. Não por ser um livro de considerações espirituais ou piedosas. Não porque advogue um politically correct, diplomacia ou uma estratégia “política para obter consenso e paz dialética”. Como diz o autor, “a disputa feliz tem um único princípio guia: manter a atenção, as energias e a concentração sobre temas e argumentos em discussão, sem romper as relações entre quem disputa porque quer alimentar-se das diferenças que emergem”.

“Graças à web tornámo-nos mais próximos, mas não automaticamente ‘bons vizinhos’. As tecnologias digitais colocaram-nos numa condição de constante confronto: nas redes sociais diversos mundos — culturais, sociais, religiosos — encontram-se todos os dias, sem mediações. Hoje, para fazer-se entender ocorre saber afrontar esta relação quotidiana com a diversidade do outro”. Palavra de Mastroianni.

Este é o centro da questão: a caridade é sempre declinada em hospitalidade, ou seja, deixarmo-nos habitar uns pelos outros sem fundirmo-nos. A disputa feliz, o discordar educadamente, é “este trabalho de reelaboração e reframing das próprias ideias que deriva da disponibilidade em sair do próprio mundo e do desejo de entrar naquele do outro.

Marcações: Comunicação e Media

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